O Centro de Administração e Políticas Públicas do ISCSP-ULisboa divulga a publicação do quinto volume dos relatórios do projeto de investigação “50 anos de Democracia em Portugal: Aspirações e Práticas – Continuidades e Mudanças Geracionais”.
Passados mais de 50 anos da Revolução dos Cravos, este novo volume analisa as atitudes e os comportamentos dos portugueses relativamente à participação eleitoral, procurando compreender os níveis de comparecimento às urnas, a perceção sobre a eficácia política do voto e as medidas consideradas mais adequadas para aumentar a participação eleitoral dos jovens.
O Volume 5 incide sobre três dimensões fundamentais:
- Participação eleitoral declarada;
- Eficácia política do voto;
- Medidas para aumentar a participação eleitoral dos jovens.
Graças à sobreamostragem do grupo etário dos jovens, o estudo permite comparar as atitudes e os comportamentos da população portuguesa com os dos jovens entre os 16 e os 34 anos. No caso da participação eleitoral declarada, a análise considera apenas os inquiridos com 18 ou mais anos.
Destaques do Volume 5
Os resultados mostram que a participação eleitoral declarada é maioritária tanto na população como entre os jovens. Na população portuguesa, 71,9% dos inquiridos afirmam ter votado nas eleições legislativas de janeiro de 2022, valor que cai para 60,2% entre os jovens. Em sentido inverso, 39,4% dos jovens declaram não ter votado, comparativamente com 26,3% da população.
A diferença geracional é particularmente acentuada entre os jovens dos 18 aos 24 anos. Neste grupo, apenas 40,4% declaram ter votado, enquanto 59,6% afirmam não ter participado. Entre os jovens de 25 a 34 anos, pelo contrário, a participação eleitoral declarada atinge 73,7%, aproximando-se dos níveis observados na população em geral.
A análise revela igualmente importantes desigualdades sociais na participação eleitoral. Entre os jovens, o voto declarado aumenta de forma clara à medida que melhoram as condições económicas do agregado familiar: apenas 35,6% dos jovens que consideram muito difícil viver com o rendimento atual afirmam ter votado, em comparação com 79,2% entre os que descrevem a sua situação económica como confortável. A participação também é mais elevada entre os jovens com ensino superior.
No que respeita à eficácia política do voto, predomina, em ambos os grupos, a perceção de que faz diferença em quem se vota para as políticas adotadas pelos governos. A perceção de elevada eficácia, ou seja, considerar que o voto faz “muita” ou “toda a diferença”, é partilhada por 47,9% da população e por 50,8% dos jovens. As perceções de eficácia reduzida são minoritárias e apresentam valores muito semelhantes nos dois grupos.
Os resultados mostram ainda que a perceção da eficácia política do voto tende a ser mais elevada entre os cidadãos com melhores condições económicas. Entre os jovens, este padrão é particularmente claro: a perceção de elevada eficácia aumenta de 54,8% no grupo que considera muito difícil viver com o rendimento atual para 79,8% entre os que descrevem a sua situação como confortável.
A população e os jovens manifestam igualmente um apoio muito amplo a medidas destinadas a promover a participação eleitoral juvenil. Recolhem níveis particularmente elevados de concordância com as políticas públicas orientadas para os interesses dos jovens, as reformas do sistema eleitoral que aproximem e responsabilizem os eleitos, as campanhas públicas de sensibilização, as atividades práticas de participação nas escolas e a integração de mais jovens nas listas de candidatura.
As medidas destinadas a facilitar o exercício do voto também são maioritariamente apoiadas. A diversificação dos locais de votação é defendida por 83,2% da população e por 91,2% dos jovens. A introdução do voto eletrónico conta igualmente com um apoio expressivo, sobretudo entre os jovens: 76,6% da população e 85,5% dos jovens concordam com esta medida.
Em contraste, as alterações às regras fundamentais da participação eleitoral geram maior divisão. A redução da idade mínima de voto para os 16 anos é rejeitada pela maioria da população e dos jovens, embora estes sejam relativamente mais favoráveis à proposta. Já o voto obrigatório divide os dois grupos: entre a população verifica-se uma ligeira maioria favorável, enquanto entre os jovens predomina, também por uma margem reduzida, a discordância.
Globalmente, os resultados apontam para uma importante diferença geracional ao nível do comportamento eleitoral, expressa na menor participação declarada dos jovens, sobretudo entre os 18 e os 24 anos. Contudo, revelam também uma forte continuidade geracional nas perceções relativas à eficácia política do voto e às medidas consideradas mais adequadas para promover a participação eleitoral juvenil.
Este volume oferece, assim, um contributo relevante para compreender os padrões de participação eleitoral em Portugal, as desigualdades sociais e geracionais que os atravessam e as soluções que poderão contribuir para aproximar os jovens dos processos eleitorais e das instituições representativas.
Leia o Volume 05 aqui.
Os volumes anteriores também se encontram disponíveis: