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A pandemia Covid-19, o confinamento e os impactos no dia-a-dia

A pandemia Covid-19 chegou a Portugal em março de 2020 e desde então “confinamento” e “distanciamento social” passaram a ser palavras do nosso dia-a-dia. Mas estas práticas que nos protegem, também deixam marcas nas nossas vidas. Numa entrevista à Professora do ISCSP-ULisboa Maria José Núncio, explica-nos, enquanto socióloga, o impacto que  a pandemia tem na vidas das pessoas e de que forma podemos torná-lo menos negativo.

1. Enquanto socióloga, qual considera ser o impacto da pandemia e o consequente confinamento da vida das pessoas?

Trata-se de algo completamente novo e inesperado que veio mudar o padrão das interações sociais e alterar os nossos próprios modos de vida, nomeadamente, no plano da valorização das diferentes dimensões que compõem a nossa existência.

Além do gregarismo próprio dos seres humanos e da necessidade da interação com os outros, até como elemento definidor da nossa própria identidade, a convivência é percebida como um fator equilibrador das nossas vidas e gerador de bem-estar e de sentido de pertença. Com a pandemia, passámos a olhar o outro como um potencial perigo, e o facto de estarmos a socializar as gerações mais jovens neste contexto terá influência no modo como estas interagirão no futuro. Seguramente, para as diferentes gerações que estão a viver esta situação, ela representará um marco e um ponto de viragem nas suas vidas, nos mais variados planos.

Outro elemento relevante, sobretudo se pensarmos no confinamento, tem a ver com o conceito de liberdade individual e de responsabilidade social e de cidadania. A liberdade de nos deslocarmos, sairmos e relacionarmos era algo que tomávamos como adquirido nas sociedades democráticas, e que foi posto em causa pela circunstância que vivemos. De alguma forma, a ideia de que a nossa liberdade acaba onde começa a do outro, ganhou um novo sentido. A forma como usamos a nossa liberdade, além de se ter tornado legalmente limitada, converteu-se, sobretudo, num exercício de responsabilidade e de cuidado para com os outros.

Simultaneamente, não deixa de ser interessante sublinhar que o conceito de globalização, tão debatido e controverso, tornou-se patente através de um vírus, que se deslocou à velocidade dos fluxos de capitais, bens e pessoas que são, precisamente, a marca dessa globalização.

Em ligação com esta última questão, verifica-se que esta pandemia veio colocar em evidência as desigualdades sociais e, ao mesmo tempo, tornar previsível o aumento dessas desigualdades no futuro (aumento esse que poderá ser conjuntural ou tornar-se estrutural, em função do tipo de respostas que os Estados e as Organizações Internacionais sejam capazes de implementar).

2. Atravessamos um novo confinamento. Considera que por ser o segundo estamos melhor preparados do que em março de 2020, ou se, pelo contrário, estamos mais desgastados e com maiores níveis de desânimo?

Na altura do primeiro confinamento já se notavam posições muito extremadas, entre o otimismo absoluto, relativamente às oportunidades de nos reinventarmos, enquanto sociedades, e o pessimismo mais profundo que sugeria que esta situação iria colocar em evidência os piores traços dos indivíduos e das sociedades: o egoísmo, a ganância, a indiferença ao sofrimento alheio.

De qualquer forma, acredito que este confinamento está a ser mais difícil, tanto pelo cansaço e pela incerteza, como pelos impactos sociais e económicos do primeiro confinamento, que aumentam os níveis de desesperança e desalento.

3. Como é que o ser humano aprende a lidar com o distanciamento social que atualmente vivemos?

Não estou segura que aprendamos de facto. Aquilo que fazemos é uma adaptação a circunstâncias que não podemos combater. Fazemos mudanças nos nossos modos de vida e alteramos as nossas rotinas, mas fazemo-lo sentindo que é algo violento e que, por isso, não queremos converter numa aprendizagem, pois temos a expectativa de não ter de enfrentar o mesmo tipo de desafio no futuro.

4. Considera que socialmente as regras de confinamento e de distanciamento vão deixar marcas difíceis de ultrapassar no futuro?

Vão deixar marcas para o futuro, sendo que nem todas têm de ser percebidas como negativas. Assistimos, por exemplo, a uma consciencialização acerca da importância da presença física do outro, das relações cara a cara e, até do toque do outro. Se pensarmos bem, isto era algo sobre o que não costumávamos deter-nos a pensar. Começámos, também, a dar um valor renovado e acrescido a gestos tão simples como o circular livremente nas ruas.

Se pensarmos nas marcas mais negativas, a questão do afastamento social coloca-se fundamentalmente a nível intergeracional, na relação pais/filhos/avós e netos e trata-se de uma questão com forte impacto emocional e nas dinâmicas e rotinas familiares. Desde logo porque, para as gerações mais velhas, o isolamento social, vai, muitas vezes, adensar alguma perceção de solidão, ou de afastamento social, nas gerações mais velhas.

As perdas também se situam do lado dos mais jovens, designadamente as crianças, para quem o convívio com os avós tem uma dimensão afetiva e lúdica extremamente importante, além de contribuírem para a construção de uma identidade familiar. Todas estas dimensões estão, nesta fase, em suspenso e, dependendo do tempo dessa suspensão, poderá haver dimensões de proximidade e intimidade que se atenuam, não por haver menos carinho ou afeto, mas por deixarem de fazer parte das rotinas quotidianas.

5. Que estratégias apodemos adotar, individualmente ou em família, para melhor o nosso bem-estar?

Neste momento, o recurso às tecnologias, que para muita população mais velha se circunscreve ao telefone, é fundamental: telefonar mais vezes ao dia, escutar os seus receios e apreensões, mas, ao mesmo tempo, tentar falar de outros assuntos, para além da pandemia ou das necessidades práticas que possam estar a sentir. Além disso, o apelo à prudência e ao cumprimento das recomendações de segurança deve ser assertivo, mas equilibrado, de forma a não suscitar o pânico. É importante incluir, nas conversas, histórias familiares passadas, mas também, planos e projetos de futuro, pois são motivadores. Esta constância dos contactos deve ser incentivada, também, nos netos, para que a ausência física não seja sentida como um esquecimento ou uma ausência de afeto.

Relativamente aos mais novos, e para que se mantenha essa identidade familiar, os pais, agora com mais tempo, devem ser contadores de histórias e podem, até, aproveitar algum tempo para organizar um álbum de fotografias familiares ou a árvore genealógica da família.

Para as famílias e ao nível das relações conjugais e parentais, numa situação em que a convivência se tornou contínua, é, sobretudo, importante a atenção ao outro, dado que todos reagimos de modo distinto. No plano mais prático, é importante que se delimitem tempos e espaços (nomeadamente, para quem está em teletrabalho). Essa delimitação é essencial para evitar o aumento da perceção de sobrecarga.

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